1 de abr de 2015

O vazio preenchido com nada.

Ela era o furacão. Uma tempestade em forma de mulher, uma confusão deliciosa de se presenciar. 

Batom escuro, café quente, bebida forte. 

Festa, praia, casa, trabalho, viagem.

Não foi sempre assim. De tanto ser machucada, aprendeu a machucar sem dó. 

Aprendeu que dói, mas que não mata. Transforma, mas não faz se perder. Às vezes.

Invejada pelas meninas e desejada pelos meninos, a garota pisava fundo no acelerador. 

O drink passava queimando a garganta, as danças eram de olhos fechados, mas o que ninguém sabia, ninguém via, é que no fim da noite, a menina chegava em casa, tirava a maquiagem, tomava um remédio forte e desabava na cama, com o rosto molhado de lágrimas, por todas as noites durante um mês, três, um ano, dois.

Em algum momento parou de chorar. Parou de sentir, também. Começou a bater de tanto que apanhou, deu rasteira na vida, fugiu de casa, aumentou a bebida e o café, cada vez mais forte e quente, era sua única companhia.

"Garotas festeiras não se machucam.", foi traduzida e tatuada no quadril, do lado direito, para que ela lembrasse da própria regra. 

Cada vez que sentia que iria sentir, aumentava a dose da vodka, e quebrava um coração. 

Ou cortava o cabelo. Pintava de uma cor bem diferente, a última da vez foi roxo, deixava forte o delineador e apelava para  batom vermelho, tal como seu coração, que já acreditava estar azul, gelado. 

A menina que ela foi, um dia, ainda estava ali. Ela não queria resgatá-la, pois achava idiotice
amar e se entregar. Julgava o seu antes por ser tão boa - idiota - a ponto de acreditar nos outros.

A pele pálida reluzia, e as noites eram longas.

Pobre menina, mal sabia que boba era agora, não vivendo a realidade.

Inventou um mundo, e achando que tinha liberdade por beber o que quisesse, ir onde quisesse, conhecer quem bem sentisse vontade, não tinha ideia que se perdia cada vez mais.

E se perdeu assim, um pouquinho a cada noite. A cada tragada, a cada gole. 

É frio lá fora, e está escuro, mas ela finge não estar sentindo. Como sempre. Nunca sentiu, e nem quer, não como antes. 

Conhece todos os lugares, menos a si mesma. Sabe tudo sobre sentir-se bem, mas nunca se sentiu bem.

Acha que partir corações concerta um pouquinho o seu, mas só o quebra mais.

Nesta noite em especial, exagera um pouco demais, pela última vez. 

Você me pergunta: morreu?

Sim. Mas não nesta noite. A menina já está morta a muito tempo. A alma que costumava ser colorida se tornou cinza. A mente era um emaranhado de nuvens chuvosas.

A tempestade cessou. A chuva parou. A bebida acabou. O café acabou gelando, como seu pobre coração. 

O golpe fatal quem deu, não foi a vida, mas ela mesma. 

Antes de as luzes se apagarem pela última vez, sussurrou um pedido de perdão. Não aos outros, mas a si. 

Decepcionou a menina que foi outrora. 

E uma lágrima solitária escorreu do olho esquerdo e deslizou pela pele fria.

Só.

As luzes queimaram, e a menina já não podia mais brilhar. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário